Seu plano está usando o mapa certo? Hipóteses atuariais e estudos de aderência
Atualizado: 18 de out.
Regimes próprios de previdência (RPPS) e fundos de pensão (EFPC) fazem promessas que se cumprem ao longo de décadas. Todo ano, com a data focal de 31 de dezembro, a avaliação atuarial mede quanto essas promessas custam hoje. A avaliação é a fotografia do plano. As hipóteses atuariais são a lente. Com a lente desfocada, a foto pode até sair bonita, mas sai errada.
Quando as hipóteses se afastam da realidade, o custo pode parecer menor do que é, escondendo um déficit que só aparece mais tarde, ou maior do que é, exigindo de servidores, participantes e patrocinadores contribuições acima do necessário. Nos dois casos, a decisão passa a ser tomada sobre um retrato distorcido.
A seguir, mostramos quais hipóteses sustentam o cálculo, como se verifica se elas ainda conversam com a realidade, o que a regulação exige de cada tipo de plano e por que o acompanhamento não deve esperar o prazo da norma.
Hipótese atuarial: uma previsão com régua
Para projetar benefícios que serão pagos ao longo de décadas, é preciso assumir premissas: por quanto tempo as pessoas viverão (mortalidade e sobrevivência), quantas se invalidarão (entrada em invalidez), quanto crescerão os salários (crescimento salarial real), quanto o patrimônio renderá (taxa de juros real), quem entra e quem sai do grupo (rotatividade e reposição) e como é a família de cada participante (composição familiar).
A classificação mais adotada no Brasil, proposta pelo Instituto Brasileiro de Atuária, organiza essas hipóteses em quatro famílias:

Ilustração: elaboração Union, com base no Pronunciamento CPA 003 do IBA.
Pense no GPS do carro. Ele estima o horário de chegada a partir de uma velocidade média esperada. Se o trânsito real diverge, ele recalcula a rota. O estudo de aderência é exatamente esse recálculo: compara o que a hipótese esperava com o que de fato aconteceu na massa de participantes e indica se a premissa deve ser mantida, ajustada ou substituída.
Como se testa: esperado × observado
Tome a mortalidade como exemplo. Para cada faixa etária, a tábua indica quantos óbitos seriam esperados (E), dado o número de pessoas expostas ao risco. Esses números são comparados com os óbitos efetivamente observados (O) nos registros do plano.
Não há um método único: a escolha depende da hipótese analisada, do tamanho da população e da qualidade dos dados. Entre os testes mais usados nos relatórios publicados por regimes e entidades estão o qui-quadrado de aderência e o teste de Kolmogorov-Smirnov, em geral acompanhados da comparação direta entre observado e esperado. No qui-quadrado, soma-se, faixa a faixa, (O − E)² ÷ E. Se o resultado superar o valor crítico para os graus de liberdade e o nível de significância adotados, rejeita-se a hipótese de que a tábua descreve bem aquela população.

Gráfico ilustrativo com dados hipotéticos. Fonte: elaboração Union.
No exemplo, a tábua A produz qui-quadrado de 1,4, muito abaixo do valor crítico de 14,07 (7 graus de liberdade, 5% de significância): ela adere aos dados. A tábua B produz 43,1 e é rejeitada. Repare no sentido do erro: a tábua B espera mais mortes do que as que ocorrem. Em linguagem direta, ela é otimista demais com a morte e, por isso, pessimista de menos com a conta. Ao subestimar a longevidade, ela subestima o passivo de aposentadorias e pensões.
Atenção às massas pequenas: em RPPS de municípios menores, poucos eventos por ano reduzem o poder estatístico dos testes. Nesses casos, é recomendável agregar mais anos de observação e combinar o teste com julgamento técnico fundamentado. A própria regulação admite que o relatório registre a insuficiência de dados quando a aderência não puder ser demonstrada.
A hipótese mais sensível: a taxa de juros
O passivo atuarial é o valor presente dos benefícios futuros. Quanto menor a taxa usada para trazer esses fluxos a valor presente, maior o compromisso apurado. A medida dessa sensibilidade é a duração do passivo: como aproximação, a variação percentual do passivo é a duração multiplicada pela variação da taxa.

Gráfico ilustrativo: fluxo de benefícios hipotético com duração de 12,3 anos. Fonte: elaboração Union.
No exemplo, com duração de 12,3 anos, reduzir a taxa de 5,5% para 5,0% eleva o passivo em cerca de 6% (12,3 × 0,5 p.p. ≈ 6,2%). Por isso o estudo da taxa de juros não é formalidade: ele confronta a taxa adotada com a rentabilidade que a carteira efetivamente consegue entregar e com os limites regulatórios.
No RPPS: o que exige a Portaria MTP nº 1.467/2022
Relatório de Análise das Hipóteses (RAH): demonstra a adequação das hipóteses às características da massa de segurados e beneficiários, com metodologia, testes e conclusão sobre manter ou alterar cada hipótese (Anexo VI, art. 27).
Periodicidade: elaboração no mínimo a cada quatro anos, com envio pelo Cadprev. A norma admite prazo menor, e a Secretaria de Previdência pode solicitar o relatório antes (Anexo VI, art. 32).
Base de dados: pelo menos cinco exercícios para as hipóteses biométricas e de crescimento salarial, e três para a taxa de juros e as demais hipóteses (Anexo VI, arts. 28 a 31).
Governança: os conselhos deliberativo e fiscal devem ser cientificados, com sumário executivo dos resultados (Anexo VI, art. 27, § 2º).
Tábuas biométricas: a tábua do IBGE, segregada por sexo, é a referência mínima para mortalidade; para entrada em invalidez, a tábua Álvaro Vindas (art. 36).
Crescimento salarial: taxa real mínima de 1% ao ano (art. 38).
Taxa de juros: limitada à taxa de juros parâmetro, que corresponde ao ponto da estrutura a termo de taxa de juros média (ETTJ) mais próximo da duração do passivo apurada na avaliação anterior (art. 39 e Anexo VII). É admitido acréscimo de 0,15 ponto percentual por ano em que a meta atuarial tenha sido superada nos últimos cinco anos, observadas as condições do art. 3º do Anexo VII.
ETTJ: divulgada anualmente pelo MPS; para a data focal de 31/12/2025, pela Portaria MPS nº 2.010/2025.
Reposição de segurados: a Portaria MPS nº 3.811/2024 disciplinou a hipótese, exigindo base de dados de pelo menos cinco anos e revisão periódica, com regras de transição.
Nos fundos de pensão: o que exige a Resolução Previc nº 23/2023
Estudo técnico de adequação (arts. 75 a 87): abrange a convergência da taxa de juros com a rentabilidade projetada dos investimentos e a aderência das demais hipóteses biométricas, demográficas, econômicas e financeiras.
Validade (art. 79): até três anos para as hipóteses em geral; um ano para o estudo de convergência da taxa de juros; cinco anos quando adotada tábua geracional com escala de melhoria de longevidade.
Governança (art. 82): aprovação pela Diretoria Executiva e pelo Conselho Deliberativo, acompanhada de parecer do Conselho Fiscal.
Novo estudo a qualquer tempo (art. 81): a Previc pode exigi-lo se considerar o estudo inconsistente ou insuficiente.
Tábua de mortalidade (art. 57): a AT-2000 Básica, segregada por sexo, é a referência regulatória.
Taxa de juros parâmetro (art. 50): ponto da ETTJ mais próximo da duração do passivo. Pela Portaria Previc nº 324/2026, a taxa parâmetro é de 6,58% para duração de 1 ano (intervalo de 4,61% a 6,98%) e de 6,15% para duração de 33 anos ou mais (intervalo de 4,30% a 6,55%).
Avaliação anual (art. 47): o resultado do estudo alimenta diretamente a avaliação do exercício.
RPPS × fundos de pensão, lado a lado
Aspecto | RPPS | Fundos de pensão (EFPC) |
|---|---|---|
Norma de referência | Portaria MTP nº 1.467/2022 | Resolução Previc nº 23/2023 |
Documento | Relatório de Análise das Hipóteses (RAH) | Estudo técnico de adequação das hipóteses |
Periodicidade | No mínimo a cada 4 anos | Validade de até 3 anos; taxa de juros, 1 ano; tábua geracional, 5 anos |
Governança | Ciência dos conselhos deliberativo e fiscal | Aprovação pela Diretoria Executiva e pelo Conselho Deliberativo, com parecer do Conselho Fiscal |
Tábua de mortalidade | Referência mínima: tábua do IBGE, por sexo | Referência: AT-2000 Básica, por sexo |
Taxa de juros | Limitada à taxa parâmetro (ETTJ × duração), com acréscimo condicionado ao histórico da meta | Taxa parâmetro (ETTJ × duração), com intervalo de 70% da taxa até +0,4 p.p. |
Crescimento salarial | Mínimo de 1% a.a. real | Fundamentado no estudo técnico |
Prazo máximo não é prazo ideal
As periodicidades fixadas pelas normas são limites, não a frequência recomendada. As duas regulações admitem estudos em intervalos menores, e os órgãos de supervisão podem exigi-los antes do prazo. As referências internacionais seguem a mesma linha: o padrão de prática atuarial norte-americano para planos de pensão (ASOP nº 27, revisado em 2023) orienta que, a cada data de avaliação, o atuário verifique se as hipóteses continuam razoáveis e analise os ganhos e perdas atuariais do período.

Ilustração: elaboração Union, com base na Portaria MTP nº 1.467/2022 e na Resolução Previc nº 23/2023.
A boa prática atuarial pede acompanhamento contínuo: a cada exercício, comparar os eventos observados com os esperados, a rentabilidade com a meta e os reajustes com a hipótese salarial, além de verificar a qualidade da base cadastral. O estudo completo vem no prazo regulatório, ou antes, sempre que aparecerem os sinais de alerta abaixo.
Sinais de alerta antes de fechar a avaliação
Óbitos observados sistematicamente abaixo do esperado em várias faixas etárias: a longevidade pode estar subestimada.
Aposentadorias ocorrendo em idades diferentes das projetadas, sobretudo após mudanças nas regras de elegibilidade.
Crescimento salarial real observado muito distante da premissa adotada, inclusive após reestruturações de carreira.
Rentabilidade da carteira abaixo da meta atuarial por exercícios consecutivos.
Mudanças nas regras de benefícios ou reformas previdenciárias desde o último estudo.
Base cadastral incompleta (datas de nascimento, dependentes, tempo de contribuição anterior): sem dados confiáveis, nenhum teste é confiável.
Hipóteses mantidas por inércia, sem estudo vigente que as sustente.
Como a Union pode ajudar
A Union elabora o Relatório de Análise das Hipóteses dos RPPS e os estudos técnicos de adequação das EFPC, com testes de aderência, análise de sensibilidade, diagnóstico da base cadastral e apresentação dos resultados aos conselhos, em linguagem que permite decidir com segurança. Entre um estudo e outro, acompanha as hipóteses a cada avaliação, para que nenhuma mudança relevante passe despercebida.
Hipótese boa é aquela que a realidade confirma. Melhor descobrir no estudo do que no desequilíbrio.
Fale com a Union e prepare a avaliação atuarial deste exercício com hipóteses testadas, documentadas e acompanhadas.
Referências
BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. Portaria MTP nº 1.467, de 2 de junho de 2022.
BRASIL. Ministério da Previdência Social. Portaria MPS nº 2.010/2025 (ETTJ para a data focal de 31/12/2025).
BRASIL. Ministério da Previdência Social. Portaria MPS nº 3.811/2024 (hipótese de reposição de segurados).
BRASIL. Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Resolução Previc nº 23, de 14 de agosto de 2023.
BRASIL. Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Portaria Previc nº 324/2026 (taxas de juros parâmetro).
BRASIL. Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Perguntas e Respostas sobre Atuária da Previdência Complementar Fechada, versão 2.0, 2021.
INSTITUTO BRASILEIRO DE ATUÁRIA. Pronunciamento CPA 003: Classificação de Hipóteses Atuariais. Resolução IBA nº 02/2016.
ACTUARIAL STANDARDS BOARD. ASOP nº 27: Selection of Assumptions for Measuring Pension Obligations. Revisão de dezembro de 2023.
Os gráficos são exemplos didáticos com dados hipotéticos e não representam plano real.





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