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Seu plano está usando o mapa certo? Hipóteses atuariais e estudos de aderência

Foto do escritor: UNION Consultoria Atuarial e Demográfica
UNION Consultoria Atuarial e Demográfica
16 de out.
7 min de leitura

Atualizado: 18 de out.

Regimes próprios de previdência (RPPS) e fundos de pensão (EFPC) fazem promessas que se cumprem ao longo de décadas. Todo ano, com a data focal de 31 de dezembro, a avaliação atuarial mede quanto essas promessas custam hoje. A avaliação é a fotografia do plano. As hipóteses atuariais são a lente. Com a lente desfocada, a foto pode até sair bonita, mas sai errada.


Quando as hipóteses se afastam da realidade, o custo pode parecer menor do que é, escondendo um déficit que só aparece mais tarde, ou maior do que é, exigindo de servidores, participantes e patrocinadores contribuições acima do necessário. Nos dois casos, a decisão passa a ser tomada sobre um retrato distorcido.


A seguir, mostramos quais hipóteses sustentam o cálculo, como se verifica se elas ainda conversam com a realidade, o que a regulação exige de cada tipo de plano e por que o acompanhamento não deve esperar o prazo da norma.


Hipótese atuarial: uma previsão com régua

Para projetar benefícios que serão pagos ao longo de décadas, é preciso assumir premissas: por quanto tempo as pessoas viverão (mortalidade e sobrevivência), quantas se invalidarão (entrada em invalidez), quanto crescerão os salários (crescimento salarial real), quanto o patrimônio renderá (taxa de juros real), quem entra e quem sai do grupo (rotatividade e reposição) e como é a família de cada participante (composição familiar).


A classificação mais adotada no Brasil, proposta pelo Instituto Brasileiro de Atuária, organiza essas hipóteses em quatro famílias:

Ilustração com as quatro famílias de hipóteses atuariais: biométricas, demográficas, econômicas e financeira

Ilustração: elaboração Union, com base no Pronunciamento CPA 003 do IBA.


Pense no GPS do carro. Ele estima o horário de chegada a partir de uma velocidade média esperada. Se o trânsito real diverge, ele recalcula a rota. O estudo de aderência é exatamente esse recálculo: compara o que a hipótese esperava com o que de fato aconteceu na massa de participantes e indica se a premissa deve ser mantida, ajustada ou substituída.


Como se testa: esperado × observado

Tome a mortalidade como exemplo. Para cada faixa etária, a tábua indica quantos óbitos seriam esperados (E), dado o número de pessoas expostas ao risco. Esses números são comparados com os óbitos efetivamente observados (O) nos registros do plano.


Não há um método único: a escolha depende da hipótese analisada, do tamanho da população e da qualidade dos dados. Entre os testes mais usados nos relatórios publicados por regimes e entidades estão o qui-quadrado de aderência e o teste de Kolmogorov-Smirnov, em geral acompanhados da comparação direta entre observado e esperado. No qui-quadrado, soma-se, faixa a faixa, (O − E)² ÷ E. Se o resultado superar o valor crítico para os graus de liberdade e o nível de significância adotados, rejeita-se a hipótese de que a tábua descreve bem aquela população.

Gráfico de barras comparando óbitos observados com os esperados por duas tábuas de mortalidade, por faixa etária

Gráfico ilustrativo com dados hipotéticos. Fonte: elaboração Union.


No exemplo, a tábua A produz qui-quadrado de 1,4, muito abaixo do valor crítico de 14,07 (7 graus de liberdade, 5% de significância): ela adere aos dados. A tábua B produz 43,1 e é rejeitada. Repare no sentido do erro: a tábua B espera mais mortes do que as que ocorrem. Em linguagem direta, ela é otimista demais com a morte e, por isso, pessimista de menos com a conta. Ao subestimar a longevidade, ela subestima o passivo de aposentadorias e pensões.

Atenção às massas pequenas: em RPPS de municípios menores, poucos eventos por ano reduzem o poder estatístico dos testes. Nesses casos, é recomendável agregar mais anos de observação e combinar o teste com julgamento técnico fundamentado. A própria regulação admite que o relatório registre a insuficiência de dados quando a aderência não puder ser demonstrada.

A hipótese mais sensível: a taxa de juros

O passivo atuarial é o valor presente dos benefícios futuros. Quanto menor a taxa usada para trazer esses fluxos a valor presente, maior o compromisso apurado. A medida dessa sensibilidade é a duração do passivo: como aproximação, a variação percentual do passivo é a duração multiplicada pela variação da taxa.

Gráfico mostrando que o passivo aumenta à medida que a taxa de juros diminui

Gráfico ilustrativo: fluxo de benefícios hipotético com duração de 12,3 anos. Fonte: elaboração Union.


No exemplo, com duração de 12,3 anos, reduzir a taxa de 5,5% para 5,0% eleva o passivo em cerca de 6% (12,3 × 0,5 p.p. ≈ 6,2%). Por isso o estudo da taxa de juros não é formalidade: ele confronta a taxa adotada com a rentabilidade que a carteira efetivamente consegue entregar e com os limites regulatórios.


No RPPS: o que exige a Portaria MTP nº 1.467/2022

  • Relatório de Análise das Hipóteses (RAH): demonstra a adequação das hipóteses às características da massa de segurados e beneficiários, com metodologia, testes e conclusão sobre manter ou alterar cada hipótese (Anexo VI, art. 27).

  • Periodicidade: elaboração no mínimo a cada quatro anos, com envio pelo Cadprev. A norma admite prazo menor, e a Secretaria de Previdência pode solicitar o relatório antes (Anexo VI, art. 32).

  • Base de dados: pelo menos cinco exercícios para as hipóteses biométricas e de crescimento salarial, e três para a taxa de juros e as demais hipóteses (Anexo VI, arts. 28 a 31).

  • Governança: os conselhos deliberativo e fiscal devem ser cientificados, com sumário executivo dos resultados (Anexo VI, art. 27, § 2º).

  • Tábuas biométricas: a tábua do IBGE, segregada por sexo, é a referência mínima para mortalidade; para entrada em invalidez, a tábua Álvaro Vindas (art. 36).

  • Crescimento salarial: taxa real mínima de 1% ao ano (art. 38).

  • Taxa de juros: limitada à taxa de juros parâmetro, que corresponde ao ponto da estrutura a termo de taxa de juros média (ETTJ) mais próximo da duração do passivo apurada na avaliação anterior (art. 39 e Anexo VII). É admitido acréscimo de 0,15 ponto percentual por ano em que a meta atuarial tenha sido superada nos últimos cinco anos, observadas as condições do art. 3º do Anexo VII.

  • ETTJ: divulgada anualmente pelo MPS; para a data focal de 31/12/2025, pela Portaria MPS nº 2.010/2025.

  • Reposição de segurados: a Portaria MPS nº 3.811/2024 disciplinou a hipótese, exigindo base de dados de pelo menos cinco anos e revisão periódica, com regras de transição.


Nos fundos de pensão: o que exige a Resolução Previc nº 23/2023

  • Estudo técnico de adequação (arts. 75 a 87): abrange a convergência da taxa de juros com a rentabilidade projetada dos investimentos e a aderência das demais hipóteses biométricas, demográficas, econômicas e financeiras.

  • Validade (art. 79): até três anos para as hipóteses em geral; um ano para o estudo de convergência da taxa de juros; cinco anos quando adotada tábua geracional com escala de melhoria de longevidade.

  • Governança (art. 82): aprovação pela Diretoria Executiva e pelo Conselho Deliberativo, acompanhada de parecer do Conselho Fiscal.

  • Novo estudo a qualquer tempo (art. 81): a Previc pode exigi-lo se considerar o estudo inconsistente ou insuficiente.

  • Tábua de mortalidade (art. 57): a AT-2000 Básica, segregada por sexo, é a referência regulatória.

  • Taxa de juros parâmetro (art. 50): ponto da ETTJ mais próximo da duração do passivo. Pela Portaria Previc nº 324/2026, a taxa parâmetro é de 6,58% para duração de 1 ano (intervalo de 4,61% a 6,98%) e de 6,15% para duração de 33 anos ou mais (intervalo de 4,30% a 6,55%).

  • Avaliação anual (art. 47): o resultado do estudo alimenta diretamente a avaliação do exercício.


RPPS × fundos de pensão, lado a lado

Aspecto

RPPS

Fundos de pensão (EFPC)

Norma de referência

Portaria MTP nº 1.467/2022

Resolução Previc nº 23/2023

Documento

Relatório de Análise das Hipóteses (RAH)

Estudo técnico de adequação das hipóteses

Periodicidade

No mínimo a cada 4 anos

Validade de até 3 anos; taxa de juros, 1 ano; tábua geracional, 5 anos

Governança

Ciência dos conselhos deliberativo e fiscal

Aprovação pela Diretoria Executiva e pelo Conselho Deliberativo, com parecer do Conselho Fiscal

Tábua de mortalidade

Referência mínima: tábua do IBGE, por sexo

Referência: AT-2000 Básica, por sexo

Taxa de juros

Limitada à taxa parâmetro (ETTJ × duração), com acréscimo condicionado ao histórico da meta

Taxa parâmetro (ETTJ × duração), com intervalo de 70% da taxa até +0,4 p.p.

Crescimento salarial

Mínimo de 1% a.a. real

Fundamentado no estudo técnico


Prazo máximo não é prazo ideal

As periodicidades fixadas pelas normas são limites, não a frequência recomendada. As duas regulações admitem estudos em intervalos menores, e os órgãos de supervisão podem exigi-los antes do prazo. As referências internacionais seguem a mesma linha: o padrão de prática atuarial norte-americano para planos de pensão (ASOP nº 27, revisado em 2023) orienta que, a cada data de avaliação, o atuário verifique se as hipóteses continuam razoáveis e analise os ganhos e perdas atuariais do período.

Linha do tempo comparando os prazos máximos de estudo no RPPS e nos fundos de pensão com a verificação anual recomendada pela boa prática

Ilustração: elaboração Union, com base na Portaria MTP nº 1.467/2022 e na Resolução Previc nº 23/2023.


A boa prática atuarial pede acompanhamento contínuo: a cada exercício, comparar os eventos observados com os esperados, a rentabilidade com a meta e os reajustes com a hipótese salarial, além de verificar a qualidade da base cadastral. O estudo completo vem no prazo regulatório, ou antes, sempre que aparecerem os sinais de alerta abaixo.


Sinais de alerta antes de fechar a avaliação

  • Óbitos observados sistematicamente abaixo do esperado em várias faixas etárias: a longevidade pode estar subestimada.

  • Aposentadorias ocorrendo em idades diferentes das projetadas, sobretudo após mudanças nas regras de elegibilidade.

  • Crescimento salarial real observado muito distante da premissa adotada, inclusive após reestruturações de carreira.

  • Rentabilidade da carteira abaixo da meta atuarial por exercícios consecutivos.

  • Mudanças nas regras de benefícios ou reformas previdenciárias desde o último estudo.

  • Base cadastral incompleta (datas de nascimento, dependentes, tempo de contribuição anterior): sem dados confiáveis, nenhum teste é confiável.

  • Hipóteses mantidas por inércia, sem estudo vigente que as sustente.


Como a Union pode ajudar

A Union elabora o Relatório de Análise das Hipóteses dos RPPS e os estudos técnicos de adequação das EFPC, com testes de aderência, análise de sensibilidade, diagnóstico da base cadastral e apresentação dos resultados aos conselhos, em linguagem que permite decidir com segurança. Entre um estudo e outro, acompanha as hipóteses a cada avaliação, para que nenhuma mudança relevante passe despercebida.

Hipótese boa é aquela que a realidade confirma. Melhor descobrir no estudo do que no desequilíbrio.

Fale com a Union e prepare a avaliação atuarial deste exercício com hipóteses testadas, documentadas e acompanhadas.


Referências

  • BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. Portaria MTP nº 1.467, de 2 de junho de 2022.

  • BRASIL. Ministério da Previdência Social. Portaria MPS nº 2.010/2025 (ETTJ para a data focal de 31/12/2025).

  • BRASIL. Ministério da Previdência Social. Portaria MPS nº 3.811/2024 (hipótese de reposição de segurados).

  • BRASIL. Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Resolução Previc nº 23, de 14 de agosto de 2023.

  • BRASIL. Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Portaria Previc nº 324/2026 (taxas de juros parâmetro).

  • BRASIL. Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Perguntas e Respostas sobre Atuária da Previdência Complementar Fechada, versão 2.0, 2021.

  • INSTITUTO BRASILEIRO DE ATUÁRIA. Pronunciamento CPA 003: Classificação de Hipóteses Atuariais. Resolução IBA nº 02/2016.

  • ACTUARIAL STANDARDS BOARD. ASOP nº 27: Selection of Assumptions for Measuring Pension Obligations. Revisão de dezembro de 2023.


Os gráficos são exemplos didáticos com dados hipotéticos e não representam plano real.

 
 
 

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